Grandes poetas de língua Portuguesa
por António Alberto
“José Carlos Pereira ARY dos SANTOS – Lisboa, 7 de Dezembro de 1936 – Lisboa, 18 de Janeiro de 1984”
A voz tonitruante, o porte aristocrático, a alma libertária. Contra todos os que o tentaram aviltar nunca temeu o confronto.
Odiou sempre a cobardia.
Defendeu até á morte o que desejava para o seu povo.
Homem do mundo talvez num mundo pequeno demais para ele.
Homem ás vezes perdido, mas nunca vencido, ei-lo:
Soneto do trabalho
Das prensas dos martelos das bigornas
das foices dos arados das charruas
das alfaias dos cascos e das dornas
é que nasce a canção que anda nas ruas.
Um povo não é livre em águas mornas
não se abre a liberdade com gazuas
à força do teu braço é que transformas
as fábricas e as terras que são tuas.
Abre os olhos e vê. Sê vigilante
a reacção não passará diante
do teu punho fechado contra o medo.
Levanta-te meu Povo. Não é tarde.
Agora é que o mar canta é que o sol arde
Pois quando o povo acorda é sempre cedo.
Ary dos Santos
Algumas palavras minhas:
“Porquê?
É a pergunta.
Quando se pergunta porquê
alguém estremece
alguém se inquieta
alguém pergunta
como?!!!
Importa-se de repetir?...
Porquê? Ora essa…
Porque sim.
Porque sim, não!
Sim. Não, porque eu não quero.
Tem que ser…
As coisas sempre
Foram assim.
Não!
Mas não porquê???
Porque se as coisas
eram assim
a partir de agora
não o serão.
Não!?
Não!
António Alberto”
a.albertogorjao@gmail.com
Hoje, felizmente, temos mais três colaborações de mulheres, poetisas, da nossa terra: Minda, Vera e Isa privilegiam-nos com três poemas:
“Minda:
Uma forma nova
num desenho que se revela.
Alguma agonia…
Alguma esperança…
Ás vezes triste
outras ambiciosa.
Preciosa colaboração
De que todos necessitamos.
A dose de alegria,
que se adivinha
no sorriso aberto,
mostra mundos.
António Alberto”
“De nada
De nada sinto-me feita
(tão leve e perfeita)
Como se nuvem fosse…
Lá no alto viajando
Desfeita por uma brisa
Na areia adormecida
(ou simples memória esquecida)
Entre sonhos perdida
De espuma formada
Ao sol evaporada
No céu vagueando
(liberta de dor e sofrimento)
Até ao infinito chegar
Em estrela me transformar
Para teu rosto iluminar
Um sorriso feliz encontrar
Teu coração aquecer
E não mais voltar a me perder.
Minda”
“Vera:
De sobressaltos
E lágrimas feita.
No desejo do impossível
Detém-se no sonho.
Ao sofrer
Liberta-se.
Ao adormecer
descansa.
António Alberto”
“Meu amigo
Na noite
arrancaste-me do sono.
Debati-me.
Ouvi-te em cores.
Soluçou-me o coração,
romperam-me lágrimas.
Chorei e chorei-te,
porque a tua voz era firme
como se o dia fosse alto.
Era cheia, plena, convicta,
quase sangrava
soava
a coragem, impulso,
a vontade de fazer justiça.
Oferecer
o mais raro dos presentes,
o mais valioso que a vida dá,
do poder escolher,
de entre tantos aqueles
que chamamos Amigos,
de entre menos, aquela
a quem (me) chamas Irmã.
Esse foi o poder de ser,
mais, melhor, maior,
quase imortal, sublime.
E em branco
na nuvem desse sonho
adormeci.
Vera”
“Isa:
Quantas gravatas
apertam mais a cabeça
do que o pescoço
onde estão penduradas?
Quantas grilhetas
nos ferem por fora
e nos marcam por dentro?
Não é preciso
matar ninguém
para nós vivermos .
As algemas, muitas vezes,
Somos nós que as criamos.
Cabe-nos
o dever de sermos livres.
dever indivisível
do seu companheiro inseparável;
o Amor
António Alberto”
“Voar a dois
Perdoa
a esta ave
que queria voar, mas só agora compreendeu
que finalmente voa
deixou de ter as guias cortadas.
As penas cresceram e pôde finalmente elevar-se.
Desvendar os céus, a dois, em conjunto,
Contra os ventos do árctico
gelados e agrestes.
Sim, isso é ser livre.
Sonhar, arquitectar, perseguir.
Desenhar as rotas
e com a nossa bússola
guiarmo-nos.
Por favor companheiro de viagem
Vem comigo, não me deixes para trás,
não me deixes cair; agarra-me.
Isa”
Até para a semana.
António Alberto
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A Palavra n' O RIO (2)
Grandes poetas de língua Portuguesa
por António Alberto
[size=medium“Vinicius de Moraes[/size]
Nasceu a 19 de Outubro de 1913 no Rio de Janeiro e morreu a 9 de Julho de 1980, também no Rio de Janeiro.
Poeta, pensador, jornalista e compositor, foi, no seu eclectismo, um nome maior da língua portuguesa do séc. XX.
Com ampla e profunda intervenção politica e social, aliada ao seu imenso gosto pelo belo, deixa-nos uma obra sobre a qual vale a pena reflectir, ler, e reler:
A Rosa de Hiroxima
Pensem nas criançasMudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexactas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueça
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioactiva
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atómica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.
“Vinícius de Moraes”
De Livro de Letras
De mim tereis como sempre algumas palavras:
“Rua"
Na rua solitária
sem margens
nem sossego
caminho.
Não temo…
Mas muitas vezes
sinto
que há horas terríveis,
cruéis, desumanas.
Horas em que o áspero,
se sobrepõe ao doce leito.
O ventre,
que deveria ser fértil,
dá à luz, por vezes, por vezes demais,
o estéril.
O ventre tem a obrigação de gerar.
O ventre é o cofre das ideias.
Não me forcem,
por agora,
a mais palavras.
Façam, exijam, reclamem.
Deixem-se de conversa e caminhem.
Assim vos espero com urgência
que é a melhor amiga da paciência,
que tem limites ainda não conhecidos.
António Alberto
a.albertogorjao@gmail.com
Por António Alberto: A Palavra n' O RIO (1)
“Do rio que tudo arrasta
se diz que é violento,
mas ninguém diz violentas
as margens que o comprimem”.
Bertolt Brecht
A palavra n´”O Rio”
Nada posso dizer
que não saibam já.
Nada posso escrever
Que alguém não tenha pensado já.
Eu estou no rio, dentro do rio,
Identificado com o rio.
Só me resta dizer-vos
que vos quero.
Quero que participem,
que façam, que colaborem.
Não deixem as vossas ideias fechadas;
deixem que brotem…
Deixem escorrer como lava,
acima de tudo, como lava que tudo queima.
A ideia, a página, o papel, tudo permite;
Excepto o branco
excepto a ausência por inacção.
Falem, escrevam, discutam.
Sejam vivos.
Confrontem-se comigo, confrontem-se convosco,
e ajam.
Realizem o sonho,
digam aquilo que teêm
“Pudor de contar seja a quem for” (José Régio).
Contem tudo, ou nada,
participem,
intervenham!
Façam, façamo-nos ouvir!
António Alberto
Começo:
Iniciamos, assim, esta nossa conversa semanal para a qual todos estão convidados.
Comeremos, semanalmente, das palavras como sementes que, espero, germinem como flores silvestres que todos nós somos embora, ás vezes, não saibamos.
Estão todos convidados para o banquete que agora vai começar. Quando vai terminar?.
Não sei.
Depende de vós.
Está, como sempre esteve, tudo na vossa mão.
Não estamos á procura de seguidores, mas sim de amigos; meus amigos, vossos amigos.
Em cada segunda feira cá estaremos, enquanto a vida nos permitir…
E acreditem que “nunca por vingança eu vos daria no ventre das “canções” sabedoria” (José Mário Branco).
P.S. Esperamos que todos se envolvem num projecto comum, numa livre e forte iniciativa!
Vamos criar nesta página secções para todos; para os clássicos, para os novos, para os tímidos e, também para aqueles como eu.
Até para a semana
António Alberto
Poetas de sempre e de todos os lugares
Se, depois de eu morrer...
Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas --- a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.
(...)
> (*) Alberto Caeiro
Poetas de aqui e de agora
O Alentejo
Fui um dia ao Alentejo
E aquilo que lá vejo
Dá pena mete pavor
Não se vê uma sementeira
Não se vê trigo na eira
Não se encontra um lavrador
Já ninguém quer cultivar
A terra que dava o pão
Dá mesmo para pensar
Aonde vamos parar
A mim faz-me confusão
Semeia-se o girassol
Sementeira simulada
Se não chove e só faz sol
A colheita não dá nada
Depois lança-se o anzol
P’ra receber a mesada
Ó meu Alentejo
Tu és desprezado
E tão castigado
Com seca e calor
Fica descansado
Que eu não te desprezo
E é por ti que eu rezo
No altar do Senhor.
> Francisco Manuel Pereira Silva





